Olá, sou o Rui Remédios, sou de Beja, tenho 35 anos e ando na prostituição desde os 20 anos contando neste momento quinze anos de carreira artística. Foi precisamente há quinze anos atrás que me apercebi da falta que as mulheres sentem, em ter alguém que as oiça e diga sim a tudo. Alguém que lhes diga frases bonitas! Há muita carência feminina, as mulheres suspiram por um homem que as oiça com os dois ouvidos e lhe diga um “SIM” convicto a tudo. Eu senti que era a minha oportunidade de me encher de dinheiro. Foi então, com os meus vinte anos, que comprei uma caixa de pastilhas para o hálito e fiz o meu primeiro atendimento. Lembro-me como se fosse hoje: uma senhora dos seus cinquenta anos que andava deprimida porque o marido não lhe dizia que estava linda todos os dias quando chegava a casa. A troco de quinze euros lá lhe disse “você está linda!”. As lágrimas correram-lhe rosto a baixo. Nesse momento também quase que choro porque é difícil mentir daquela maneira e chamar linda a uma cara que parece uma pintura do Picasso. Essa minha primeira cliente marcou-me para sempre até porque a atendi centenas de vezes até ela curar a depressão. Tanta vez lhe disse “hoje estás linda!” e lhe ouvi lamentações. Penso que posso ser considerado um Zézé Camarinha mas sem sexo. Eu não digo um “can I put a cream?” mas sim um “posso ler-te um poema de Florbela Espanca?”. E quando vou a despedidas de solteiras atuar não há mulheres a gritar-me “despe, despe, despe”, mas sim “mais um poema, mais um poema, mais um poema!”. As despedidas de solteiras são muito intensas pois eu estou lendo um poema em cima do palco e as mulheres atrevidas começam-me a mexer no livro e querem mudar as páginas para a frente tal é a ânsia. Já fiz até despedidas de solteira em Espanha onde li para um grupo de cem mulheres a letra de uma música do Júlio Iglésias levando-as à loucura. Projetos para o futuro? Abrir uma casa de prostituição verbal em Lisboa e torná-la um ponto de peregrinação de milhares de tias da capital e arredores.
Crónica de Ivan Valério: O prostituto verbal
